Entrevista com a escaladora Janine Cardoso!!!!
11 mai
Não são muitas as escaladoras Brasileiras que se destacam mas pode se dizer que a Janine Cardoso já fez história na escalada nacional.
Com o passar dos anos a Janine vem se destacando cada vez mais em sua escalada graças a sua dedicação, experiência e paixão pelo esporte
2011 esta sendo um ano de muitas conquistas para a Janine principalmente em sua escalada na rocha e para mostrar um pouco mais sobre sua vida como atleta, como mulher e mãe, segue abaixo sua entrevista com a equipe 4climb.

Qual a sua idade e há quanto tempo você escala?
Tenho 37 anos e escalo há 18 anos.
Qual modalidade da escalada você mais gosta ou pratica?
Escalada Esportiva em rocha é o que mais me realiza.
O que te motiva para escalar há tanto tempo?
Acho que o que me motiva é viver um dia após o outro com disciplina e paixão. Talvez o fato de praticar a escalada com muita vontade seja realmente algo que faça a diferença, e com isso, muitas coisas legais foram acontecendo para me motivar ainda mais…
Acredito que a maioria das pessoas que lerem isso aqui, sentem também que a motivação na escalada vem da alma, lá do fundo… É algo que está além de classes, de oportunidades, de rankings… É uma filosofia que une todos por uma mesma causa… Todo o resto é conseqüência né…
O que motiva é o simples ato de escalar…de esquecer o mundo lá fora e viver aquele momento com uma puta entrega, com foco… é um conjunto de coisas que me motiva, mas sem dúvida, a maior delas é o sentimento de superação aliado ao prazer de realizar uma atividade física intensa e complexa como a escalada, liberar energia de uma maneira positiva e sentir o prazer da endorfina tomar conta do corpo…
Qual seu principal objetivo para a escalada neste ano de 2011?
Meu principal objetivo este ano é participar do campeonato mundial em Arco e fazer o meu melhor lá. Isso não quer dizer ficar entre as 20, 30, 40 melhores… Resultados não querem dizer muita coisa mais…. Mas, realmente, eu gostaria de descer da via sentindo que dei tudo, descer tijolada após ter lutado por diversos lances até o meu limite…
Além disso, quero continuar escalando na rocha e manter o nível nos nonos…
Como é conciliar a vida de mãe com treinos e a escalada em rocha?
É uma vida de muita disciplina, muito amor com todos os envolvidos, algumas abdicações, muito trabalho, sempre na ação…rsrs….
Enquanto eu era casada, após o nascimento da minha filha, minha rotina de trabalho estava ligada à Casa de Pedra durante uma parte do dia,´e aos cuidados da casa. Em uma certa fase, administrava o trabalho de gerência de uma loja em São Paulo inclusive nos finais de semana, com treinos indoor e a maternidade no meio disso tudo.
Essa vida me possibilitava uma imersão indoor já que era mais simples dar uma treinada de 2 horas no ginásio enquanto alguém ficava com a minha pequena..
Em contra-partida, a maternidade nessa fase dificultava eu me lançar com mais entrega à escalada em rocha, já que a escalada em rocha para uma paulistana requer algum tipo de viagem que toma quase um dia todo (diferente do Rio por exemplo, onde a rocha está ali pertinho)…
Quando me separei, houve uma desconstrução e uma reconstrução em todas as esferas do meu ser… E a escalada manteve-se como um dos ‘carros chefes’ da minha estrutura, mas é a maternidade que guia tudo… rsrs…
Para resumir, eu trabalho pensando na escalada e na vida fora de São Paulo nos finais de semana que tenho livre, sem maternidade ou trabalho.
Amo ser mãe, mas se eu não fizer algo por mim além desse papel, sei que não estarei plena, por isso corro atrás.
Após me separar, passei a realizar com mais afinco aquilo que realmente me traz paz e felicidade – a escalada esportiva com leveza e ao mesmo tempo intensidade..
Como o pai da minha filha hoje é uma pessoa que faz questão de dividir as responsabilidades, com uma família maravilhosa e presente para ajudar nessa função, consigo intercalar os finais de semana para me dedicar à rocha com entrega sem preocupações com as responsabilidades da maternidade.
Nos finais de semana que estou com minha filha, levo ela comigo algumas vezes, já que considero a escalada uma filosofia de vida maravilhosa, e mesmo que eu não consiga escalar tanto, realizamos trilhas juntas, ela escala também ou ficamos em nossa casa curtindo o silêncio da montanha (ou o cantarolar dos galos .. rsrs)…
Uma vez que eu vivi a escalada intensamente em um final de semana ou feriado, quando estou com minha filha, tento priorizá-la, mas não anulo o que eu sou para fazer todas as suas vontades… mais uma vez, vou administrando como dá tentando achar o equilíbrio na educação, ouvindo críticas, conselhos etc..
Durante a semana, minha filha tem sempre alguma atividade, e intercalo meus treinos nesses horários, ou levo ela comigo para a academia.
Ela fica fazendo travessia, por vezes interage com outras crianças e eu sigo no meu treino do jeito que dá….
O trabalho na Revista Aventura &Ação acontece de manhã e à tarde, também intercalando as atividades como mãe e treinos…
Nos últimos anos você se destacou bastante na escalada em rocha, o que te proporcionou esta evolução?
Como eu disse acima, passei a enxergar o que realmente me traz plenitude e a paz interior ajudou também… No último ano, a parceria com o Massa, meu namorado, foi fundamental nesse processo que envolve as vias mais difíceis que realizei, pois ele é uma pessoa extremamente motivada e apaixonada pela escalada também, sempre me motivando muito, um puxando o outro de forma positiva, renovando cada dia.
Conseqüentemente, para uma pessoa que já era louca por escalada esportiva como eu, conhecer um parceiro que me proporciona companheirismo e amor, tão ou mais fanático pela escalada quanto eu, só ajudou na minha evolução.
Minha parceria com a The North Face também foi outro ponto positivo, pois de certa forma, este reconhecimento me motivou a realizar mais coisas… Sem dúvida, existe uma cobrança às vezes, o que eu tento afastar para que não polua minha vivência na escalada, pois qualquer coisa que fazemos somente por obrigação, não costuma ter um desfecho muito legal, não é mesmo? Então, claramente, sou uma pessoa que sempre fez tudo com o coração… mas que com certeza tenta usar a razão para facilitar o caminho.

Como você encara o medo e os desafios que surgem na escalada?
Na escalada esportiva, o grande medo está em não conseguir realizar algum lance, e se isso acontecer, normalmente é porque eu não estava preparada.
Se eu sinto medo em algum lance mais exposto, por exemplo, eu penso da seguinte forma, normalmente: Em uma via ‘esportiva’, se este lance está mais exposto, é porque os movimentos que formam esta sequência são fáceis para mim e por isso, eu não vou cair…
Mas eu manifesto o medo às vezes também… xingo, praguejo enquanto escalo, mas mantenho o foco no que tem que ser feito…
Eu não tenho medo de perder, aceito minhas limitações pois sei que faço o que está ao meu alcance. Se não fizer, é porque não estou preparada, e se a vida me proporcionar a oportunidade de me preparar e trabalhar em algo, kmon!
Você tem planos para campeonatos no ano de 2011?
Além do campeonato mundial em Arco, em julho, talvez eu participe de mais uma etapa da copa do mundo no final do ano, em uma viagem de família que está marcada há mais de 20 anos… Essa será especial e conto se os planos se concretizarem!
Você faz algum treino? Quantas vezes por semana?
Eu treino de 2 a 3 vezes por semana, indoor, e 1 a 2 x por semana na rocha. Depende da rotina como mãe e da carga de trabalho da semana também.
Tento seguir uma planilha que o Cesinha montou pra mim o ano passado, que adaptei para este ano de forma mais leve enquanto não surgia a certeza do mundial.
O treino envolve travessias, dias de boulder, finger board, campus board e corrida. Eu gosto de respeitar meu corpo, se ele está cansado demais por causa de um treino indoor ou escalada em rocha no dia anterior, escalo bem leve, mas normalmente só dou uma corrida nese dia, ou faço algum treino compensatório, principalmente para evitar lesões.
No seu ponto de vista como esta a escalada feminina no Brasil?
Na escalada esportiva em rocha, eu acho que. conforme a realidade brasileira se comparada com outros países onde a escalada é mais forte, estamos evoluindo bem, mas temos muito o que crescer. Temos muita pedra, mas tem que viajar né…
E depois tem que voltar pra trabalhar, estudar, etc.. e tudo isso envolve tempo e dinheiro, o que dificulta a frequência e manutenção….
Lá fora, na França, Espanha, EUA, Áustria, etc, é mais fácil se a pessoa tiver oportunidade de morar perto de um point em rocha, ou se vc puder ter uma vida mais ‘nômade’, mesmo porque os parâmetros de comparação com os outros escaladores sobe um pouco mais, e você pensa: “Poxa, mas se essa pessoa consegue, eu também consigo!, é só eu me dedicar!”
Eu acho a competição uma forma muito positiva de evoluir também, por causa da pressão que o campeonato impõe. A tremedeira, o nervoso na hora de enfrentar algo realmente desconhecido, o público… Você aprende a desplugar do mundo exterior, de qq interferência externa e aos poucos, faz o que tem que ser feito aconteça o que acontecer, lidando com situações de limite sem ligar para o que o resto do mundo vai ver ou interpretar. Se o resultado for bacana, o reconhecimento virá como um adendo. Se o resultado não for aquilo que se esperava, o apoio de quem enxerga seus sonhos virá, mas o mais importante é cada um entender e aceitar suas próprias limitações e realmente fazer algo para melhora isso.
A percepção que os escaladores europeus têm disso é muito mais clara, e acho que as crianças são preparadas desde cedo com essa visão, com motivação de outras crianças competindo, enfrentado medos e derrotas, superando-se em algumas vezes e sentindo essa sensação com mais frequência… Por isso, é claro, também, a Europa acaba contando com os campeões de escalada, pois o estímulo é muito maior de diversas formas.
Na escalada mais tradicional, vejo que tem muitas mulheres super engajadas, mas falando de projetos mais extremos, são poucas. Eu não tenho esse perfil de tradicional, não me vejo dedicada a isso… mas vai saber…
Eu já pratiquei com o Bernardo algumas vezes, me diverti, a sensação de superação é gi-gan-tes-ca, mas diferente, e conforme minha realidade, eu prefiro a esportiva…
Da tradicional, uma mulher que eu cito com admiração para representar essa modalidade é a Karina Filgueiras, que eu conheço melhor e acompanho suas conquistas… Quem sabe uma hora a gente não apronta alguma…

Você tem alguma dica, critica ou pensamento para deixar para as mulheres escaladoras do Brasil?
rsrs… Uma amiga minha citou esses dias uma frase que eu achei legal, que simplifica um pouco como eu levo a vida como escaladora… “Só é eterno aquilo que se renova todos os dias…”
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Alô galera !!!
Só faltaram os créditos na fotos…
A foto da Janine naquele teto na Lapa do Seu Antão é minhaaa !!! rsrsrsrs
abração
As fotos da Lapa estão nesse post da Jan.
http://www.janinecardoso.com/2010/11/campeonato-brasileiro-2010-news.html
Luiz Alves
http://www.fotoblocos.blogspot.com
Fala Luiz,
Irei colocar este credito.
Valeu
Excelente entrevista!! Sempre antenada, realista e sonhadora ao mesmo tempo, super mulher Janine. um beijo grande.